[ESPECIAL]: Melquisedeque, o Rei do Mundo

Seguindo minha busca por fugir um pouco ao burburinho dos agitados meios sociais virtuais, me volto para o Apóstata, esse blog marginal e vagabundo do meio pseudo-religioso. Hoje, vou introduzir a figura misteriosa da qual, talvez — vejam bem, talvez —, seja a mão que deu início às religiões monoteístas como as vemos hoje. Ou, ao menos, das religiões abraâmicas (que iniciaram sua expansão com o caldeu Abraão). O personagem do qual falo é Melquisedeque.

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Se preferirem, assistam ao podcast (áudio) desta postagem abaixo:

1. O nome Melquisedeque

O nome Melquisedeque significa, literalmente em hebraico [1], “Rei Justo” ou “Rei de Justiça”. Também poderíamos, hipoteticamente, supor que se refira a um rei “por direito” ou pela “Lei”. Tudo que é de lei, é reto, justo, segundo o Direito. Se a mãe de um personagem com esse nome pudesse escolher, obviamente não daria esse nome ao filho, já que ela não saberia se ele seria rei, e ninguém é rei no momento de seu nascimento. Também não saberia se ele seria exatamente justo. Logo, presumimos que esse não seria um nome de nascença, mas um título conferido por alguém ou assumido pelo próprio personagem.

Há quem traduza esse nome por “Meu Rei é justo”, lembrando o adágio maçônico “Deus e o meu Juiz” [2]. Decorreria essa interpretação da composição de malkh’i tzedeq. Porém, como veremos mais à frente, o autor da Carta aos Hebreus endossa a primeira hipótese, ou seja, do nome Melquisedeque como sendo “Rei Justo” (ou “de Justiça”).

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2. Melquisedeque na Bíblia

Esse personagem é citado na Bíblia, principalmente, nos livros do Gênesis, Salmos e na Carta aos Hebreus (aqui, no Novo Testamento cristão, apenas). Em Gênesis (14,18), é dito que “Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo“. Nessa ocasião, Melquisedeque teria ido felicitar Abraão pela vitória deste sobre seus inimigos no entorno de Salém (que, futuramente, viria a ser chamada de Jerusalém).

Para o ritual de bênção de Abraão (ibid.,14, 19.20), Melquisedeque teria levado pão e vinho, elementos do que viria a se tornar, depois, o ritual eucarístico de essênios, nazarenos e cristãos. O “Deus Altíssimo” se denominava, literalmente, El Elyion, em hebraico. Parece que aqui prenuncia-se, também, o louvor dos “anjos” nos céus de Belém na noite de nascimento de Jesus: “Glória a Deus no mais alto dos Céus [i.e., nas Alturas] e paz [em hebr., shalom] na Terra aos homens de boa vontade” [3].

Não se pode dizer, com certeza, que a narrativa trate de fatos históricos comprováveis. Não é novidade que certas composições literárias do passado utilizavam-se de elementos do cenário e nomes de personagens eventualmente históricos para tentar dar ares de fatos reais a mitos e parábolas.

Há fortes indícios de que, pelo menos, parte dessas narrativas sejam puramente simbólicas e buscam perpetuar ensinamentos os quais nem todos devam compreender na essência, sob pena de enfraquecer a ação do Símbolo. Como exemplo, citamos Gênesis (14,14): “Ouvindo, pois, Abrão que o seu irmão estava preso, armou os seus criados, nascidos em sua casa, trezentos e dezoito, e os perseguiu até Dã.” Ora, a exatidão com que o cronista de Gênesis cita o número de criados de Abrão contrasta com a quase total falta de informações acerca de um rei (o rei de Salém, Melquisedeque). Fica claro que o número “318” tem função puramente simbólica e criptográfica no texto. Assim, se usarmos a gematria, que é a arte de transformar nomes hebraicos em números e vice-versa, veremos que o nome Eliézer [4], o servo de Abrão que era herdeiro de todos os bens deste, equivale a trezentos e dezoito [5].

Aliás, sobre Melquisedeque, o autor da Carta aos Hebreus (supostamente, Paulo de Tarso), nos três capítulos que dedica ao personagem, parece saber mais do que qualquer outro em toda a Bíblia. Ele cita não apenas o versículo dos Salmos (110,4) sobre o “sacerdote eterno da Ordem de Melquisedeque”, que os cristãos creem ser Jesus, mas algo em torno de sua origem. Ou melhor, da falta de origem de Melquisedeque. As referências ena Carta aos Hebreus em torno de Melquisedeque se encontram, principalmente, no capítulo 7. Vejamos alguns trechos:

Porque este Melquisedeque, que era Rei de Salém, sacerdote do Deus Altíssimo, e que saiu ao encontro de Abraão quando ele regressava da matança dos reis, e o abençoou;

A quem também Abraão deu o dízimo de tudo, e primeiramente é, por interpretação, rei de justiça, e depois também rei de Salém, que é rei de paz;

Sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre.

Considerai, pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu os dízimos dos despojos.

E os que dentre os filhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, segundo a lei, de tomar o dízimo do povo, isto é, de seus irmãos, ainda que tenham saído dos lombos de Abraão.

Mas aquele, cuja genealogia não é contada entre eles, tomou dízimos de Abraão, e abençoou o que tinha as promessas.

Ora, sem contradição alguma, o menor é abençoado pelo maior.

E aqui certamente tomam dízimos homens que morrem; ali, porém, aquele de quem se testifica que vive.

(Hebreus 7,1-8)

Sim, quão grande é aquele Melquisedeque, e quase nenhum cristão ou judeu se ocupa da memória dele! Mas, talvez, deva ser desse jeito mesmo, sem alardes. Afinal, o que diriam alguns arrogantes cristãos, principalmente fanáticos dentre os católicos, se lhes alertássemos que Melquisedeque era sacerdote, sem pai nem mãe, que não nasceu ou morreu e que a ele tinha-se dado dízimos como ao Filho de Deus? Obviamente, sairiam a nos tachar como “teóricos da Conspiração”, buscando, assim, imitar seus opositores protestantes: fugir ao debate. No último versículo citado acima, o autor deixa claro que Melquisedeque ainda vive, assim como, provavelmente, Elias e Enoque [6], segundo a Tradição judaica.

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3. Outras referências judaicas

As referências a Melquisedeque são abundantes na Kabbalah, no Talmud e em outros livros (como o dos Jubileus e nos Manuscritos do Mar Morto). Ele é identificado como sendo Sem (o patriarca dos povos semitas), filho mais novo de Noé e aquele que teria oferecido o primeiro sacrifício após a saída da Arca. Mas, perguntariam: como ainda estaria vivo na época de Abraão? Bem, Sem teria vivido tempo suficiente para que encontrasse aquele que viria a se chamar Abraão.

Se Melquisedeque tiver sido o mesmo patriarca Sem, isso explicaria a importância de Jerusalém na mística semita, já que Melquisedeque teria sido rei de Salém, a posterior cidade de Jerusalém, santa por excelência. E, mais: se Melquisedeque já era sacerdote na época em que Abraão, declarado patriarca dos hapiru (a primeira referência aos hebreus, entre os sumérios), teria vivido, então, ao abençoar Abraão, Melquisedeque pode ter verdadeiramente encontrado o clima adequado para o desenvolvimento da religião cananita, só que na ideal modalidade monoteísta [7].

Melquisedeque ocupou um lugar importante na fé judaica antiga. Em um dos manuscritos do Mar Morto (11q13, do qual trataremos mais à frente), ele é apresentado como um ser semi-divino. Flávio Josefo refere-se a Melquisedeque como um “príncipe cananeu e sacerdote” [8]. Muitos estudiosos acreditam, agora, que as crenças israelitas eram uma evolução de crenças cananitas [9] [10]. Na tradição da Samaria, a cidade de Melquisedeque localizava-se próxima ao templo do Monte Gerizim. Flávio Josefo, por outro lado, seguiu a tradição judaica e ligou Salém à futura Jerusalém e ao Monte Sião.

Assim, Salém (ou Jerusalém, posteriormente) tem a ver com esse centro espiritual no qual se manifestaria o “Rei do Mundo”, o Manu na visão da Kabbalah. É a manifestação exterior de Agartha, de onde o Rei controlaria o Mundo. Na mística judaica, podemos identificar os “intermediários” celestes que conduzem o “povo eleito”: Shekhinah (a presença do Espírito de Deus) e Metatron (o “Anjo das Faces”, uma das identidades de Mikhael). Eles guiam o “povo de Israel” e os instruem para a construção do Tabernáculo, do Templo de Jerusalém, todos locais onde supostamente Deus se manifestaria.

Ordem de Melquisedeque reúne em si os princípios real e pontifical (sacerdotal), mas não o sacerdócio da carne (como o aarônico, para o povo de Israel), mas o eterno e Universal. Melquisedeque é Rei e Sacerdote. Simbolicamente, associado a esse, temos os supracitados ShekhinahMetatron. Manifesta-se, assim, a Clemência e a Justiça, as funções sacerdotais e reais, nas faces de MikhaelSamael, uma face iluminada e escura. É por aí que tem-se a ideia de um deus clemente (apenas clemente) como parcial e incompleta, chegando a ser mesmo incoerente com o princípio de onipotência desse “deus” em nosso mundo.

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4. Melquisedeque em outras culturas

As referências a Melquisedeque em outras culturas, geralmente, o reconhecem como um governante universal, com poderes temporais e espirituais, estes últimos advindos da própria Divindades Criadora. No hinduísmo e budismo, ele é o grande Chakravartin [11], ou “Grande Senhor Universal”, cujo poder se estende por todo o mundo. Também em frações do Budismo, tal governante é descrito como o senhor de Shamballa, a capital do misterioso Reino de Agartha, citado por R. Guénon, F. Ossendowsky e M. Coquet.

R. Guénon nos diz, baseado em Missão na Índia (de S. Y. d’Alveydre): “O nome Melquisedeque, ou mais exatamente ‘Melki-Tsedeq’, não é outra coisa que não o nome sob o qual a própria função de ‘Rei’ se encontra expressamente designada na tradição judaico-cristã” [12].

R. Guénon continua a falar sobre Melquisedeque em outro livro, O Rei do Mundo“Ele é Manu – esse homem vivo, Melki-Tsedeq, é Manu; que continua, com efeito, perpetuamente, isto é, por toda a duração do seu ciclo (Manvantara), ou do mundo que ele rege especialmente. É por isso que ele não tem genealogia, porque a sua origem é não humana, visto que ele próprio é o protótipo do homem. E realmente ele foi feito à semelhança do Filho de Deus, visto que, pela Lei que formula, é para esse mundo a expressão e a própria imagem do Verbo Divino” [13].

F. Ossendowsky, por sua vez, ao narrar a visita de um ser majestoso a um templo budista [14] em que esteve, afirma: “Ele está em contato com o pensamento de todos os homens, reis, czares, khans, chefes, guerreiros, sumos sacerdotes, cientistas e outros homens poderosos. Ele compreende todos os seus pensamentos e planos; se esses são agradáveis ante Deus, o Rei do Mundo os ajuda invisivelmente, e se são desagradáveis à vista de Deus, o Rei os levará à destruição” [15].

Esse Reino de Agartha, cujo centro se localizaria em um lugar chamado Shamballa ou Shangri-Lá e de onde o “Rei do Mundo” o governaria, é referenciado em muitos mitos mundo afora [16]. Uma rede de túneis e cavernas subterrâneas ligariam suas instâncias sob toda a extensão da crosta exterior do planeta. Seus habitantes teriam sob seu controle as forças da natureza, fosse para operação de cataclismos naturais ou do que chamamos de milagres (tais quais a divisão das águas do Mar Vermelho) como para provocar tanto a morte dos seres vivos ou sua revivificação.

Do Oriente ao Ocidente fala-se dele. Nos Andes, Melquisedeque é Viracocha, cujo Reino bem poderia ser o Eldorado buscado pelos colonizadores espanhóis, onde tudo seria construído com ouro e pedras preciosas. Misteriosamente, tanto os incas andinos como os maias, após a chegada dos espanhóis (no Peru e México, respectivamente), desapareceram sem deixar vestígios, tendo suas populações sumido misteriosamente nas florestas, sem jamais terem sido encontrados quaisquer fósseis correspondentes aos fugitivos [17].

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5. Melquisedeque e o Cristo

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5.1. Melquisedeque: mera figuração de Cristo?

O autor da Carta aos Hebreus cita Melquisedeque, principalmente, em seu cap. 7, ligando a figura deste a de Jesus e suas missões, o “sacerdócio eterno” (cf. Salmos 110, 4) de ambos, superior ao sacerdócio levita, os elementos rituais adotados por ambos (pão e vinho). Confesso que, ao reler certas passagens bíblicas, é tentadora a perspectiva que une esses dois personagens em apenas um. Seriam ambos manifestações pessoais do Messias, o “ungido” como Rei e Sumo Pontífice do Mundo, mediador entre o Criador e os seres humanos?

A tese de algumas correntes cristãs, inclusive a católica, de que Melquisedeque é uma prefiguração, apenas, de Cristo que havia de vir ofusca deveras a ação de Melquisedeque. Independente de Melquisedeque ter sido um mito bíblico ou não, a influência teológico-litúrgica dos símbolos atribuídos a ele é decisiva no fluxo das narrativas bíblicas. A meditação que proponho aqui visa avaliar a possibilidade de, para além de Melquisedeque ser uma mera aparição simbólica de Cristo, considerar também Cristo como o cumprimento da obra de Melquisedeque.

Como vimos acima, se levarmos em conta o significado mais aceito do nome de Melquisedeque (“Rei Justo”), fica fácil de considerá-lo não como nome, mas como um título honorífico e distintivo. Salém poderia ter sido sede de um dos mais antigos cultos monoteístas do Mundo, e seu Rei-Sacerdote um descendente de Noé, senão o próprio Sem, seu filho mais novo. Quando René Guénon diz crer que “Melquisedeque é o próprio Manu” [18], ele está a afirmar que acredita que Melquisedeque é o mesmo Noé ainda vivo, pois Manu, nos mitos hindus, refere-se ao justo que deixou as ordenanças divinas à humanidade posterior ao Dilúvio, assim como Deucalião dos gregos [19] e Gilgamesh dos sumérios. Com esta afirmativa, não posso concordar, ao menos não inteiramente. E explico.

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5.2. Melquisedeque, o deus deste planeta

Melquisedeque é o deus deste planeta, formador dos seres humanos, Rei do Mundo e Soberano Pontífice entre nós e o Criador de todas as coisas, Deus Universal. Basta compararmos os mitos de todas as religiões quanto ao Dilúvio. Para Manu (Noé para os hindus), foi Matsya, avatar (enviado e imagem) de Vishnu (o Logos da trindade bramânica), que apareceu-lhe para instruir a construção da Arca. Para Deucalião (dos gregos), foi Prometeu, o formador dos seres humanos. O El Eliyon de Melquisedeque era o Criador Universal, enquanto ele próprio seu representante e legado neste orbe.

Daí que, de Melquisedeque, como manifestação do deus que abençoa a Abraão em nome do Universo, depois de tê-lo chamado a partir da Caldeia, a Cristo, é um pulo. Todas as resistências quanto à origem divina de Cristo caem por terra. E mais ainda: apoiando-nos nas tradições de todos os povos da Terra. Tanto a carnalidade de Melquisedeque, apesar de extraordinária e não sujeita a limitações do comum dos mortais, como a de Cristo, se tornam detalhes apenas, e compreensíveis.

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5.3. Melquisedeque e Cristo são a mesma pessoa

Cristo e Melquisedeque, imagens do Rei do Mundo, a governá-lo não muito distante daqui, daí, de nós, de todos nós, perfazem autênticos avatares (imagens) do Filho de Deus, enviado do seio do Pai a guiar a humanidade em seu caminho de volta ao Pai. A própria Santíssima Trindade passa a abarcar todo o sentido de verossimilhança, mas sob uma nova perspectiva. O Pai seria mesmo o Criador Universal, inacessível Luz criadora; o Filho é o legado do Criador neste planeta, e; o Espírito Santo, aquele que vivifica todas os seres e ilumina o somatório das almas encarnadas.

Muitos versículos bíblicos são significativos em todo esse contexto. Primeiro, em Salmos 110,4, lemos dizer-se que o próprio Deus jurou que o Messias é “Sacerdote para sempre, segundo a Ordem de Melquisedeque”. Se o Messias é deus, segundo dizem os cristãos, como poderia ele estar falando de si mesmo? Poderia sim, se o Messias, que havia de vir, fosse uma manifestação do deus e Rei da Terra, seu avatar encarnado.

Outra curiosidade: na verdade, segundo a supremacia dada por cristãos a Cristo diante das criaturas, era Melquisedeque que deveria ser sacerdote segundo a Ordem Messiânica, e não o contrário. Quero, acaso, colocar Cristo sob Melquisedeque? Não, absolutamente. Quero identificá-los um com o outro. Cristo é Sacerdote Eterno, segundo a Ordem de Melquisedeque, pois o mesmo Melquisedeque é o Cristo e Messias, não apenas uma imagem sua. É o Grande Hierofante e Iniciador do Povo Eleito, e deus criador dos seres humanos a partir de Adão.

Intrigante é o que Jesus diz aos seus discípulos no Evangelho de João (16,28):

Saí do Pai, e vim ao mundo; outra vez deixo o mundo, e vou para o Pai.

Palin Iterum

Ora, como assim? Jesus deixou “outra vez” o Mundo? Sim, a despeito de malabarismos exegéticos que possam fazer os desajeitados católicos e protestantes, o texto não deixa dúvidas. No texto da Vulgata latina, a primeira versão amplamente aceita da Bíblia cristã, a palavra correspondente a “outra vez” é iterum; no Textus Receptus, versão grega mais antiga do Novo Testamento, para a mesma expressão, lemos παλιν (pálin, “outra vez, novamente”). Jesus declara já ter descido anteriormente à Terra da mesma forma que naquela sua carreira terrestre. Aliás, a própria locução adverbial “outra vez” supõe que as duas ocorrências (no mínimo, duas) se deram de formas semelhantes ou idênticas.

Tocante e igualmente inspiradora, no sentido de nossa tese, é o que Jesus diz ao lamentar sobre Jerusalém aos seus discípulos e aos fariseus [20]:

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!

Ora, o dito de Jesus acima não é uma citação, ao menos não do cânon bíblico aceito pelos cristãos. Ele fala como ser que ali já esteve ou ali já agiu, especificamente, em Jerusalém. Ou fala como deus ou como autoridade ancestral. Ou como Melquisedeque.

Numa outra ocasião, chamou-se a atenção ao ler a forma como Jesus se refere a Abraão [21]:

Abraão, vosso pai, exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se.
Disseram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão?
Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu sou.

Jesus viu Abraão e Abraão o viu. Simples assim. Por que não podemos ver Melquisedeque em Jesus, e vice-versa? Inclusive, o uso de pão e vinho como elementos simbólicos de bênção (ou atrelados a ela) liga as figuras de ambos de forma especial. Lembremos: analisando o texto de Gênesis, cap. 14, deduziremos que o vale de Savé, ou “do Rei”, localizava-se provavelmente próximo a Salém (ou, Jerusalém) e que é aí aonde Melquisedeque leva pão e vinho para abençoar Abraão e celebrar a memória da aliança com o mesmo. Seria tão difícil assim enxergarmos na celebração eucarística de Cristo a renovação do mesmo ritual (há muito esquecido pelos israelitas), ainda mais sabendo que os Doze (discípulos) poderiam simbolizar a nova descendência, semelhante àquela abraâmica, da Nova Aliança?

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5.4. O Messias na tradição essênia

Nos costumes e escritos dos essênios, seita de adeptos judeus os quais parecem falar muito de ambos (de Jesus, como Messias, e de Melquisedeque), veremos a íntima ligação de ambos com a genuína tradição messiânica antiga, não nos limitando à conformação de seus Supremos Conselhos (com doze integrantes e um Líder) e à celebração eucarística.

Especial ênfase aqui daremos ao manuscrito 11Q13, encontrado em uma das grutas do Mar Morto em meados do séc. XX, escrito aproximadamente 100 anos antes do nascimento de Cristo [22] [23]. Em seu texto, há muitas citações da Tanakh (em hebraico, equivale ao nosso Velho Testamento). Porém, para minha surpresa, vi que, no lugar do Tetragrammaton (ou seja, o nome sagrado de Deus, YHVH), era usado o nome Malkhitzedeq (Melquisedeque) para se referir a Deus.

Neste documento essênio, dentre tantas de suas afirmações sobre o Messias, que havia de salvar os “eleitos” das mãos de Belial, podemos citar [24] que:

  • A Terra Santa é herança de Melquisedeque;
  • Nos últimos tempos, Melquisedeque fará retornar o Povo da Diáspora à Terra Santa;
  • Melquisedeque os livrará de todas as suas iniquidades (pecados);
  • Melquisedeque é quem vai atuar no último e Grande Dia da Expiação para redimir Israel;
  • Israel pertence a Melquisedeque;
  • O Ano da Graça tem direta relação com Melquisedeque;
  • Melquisedeque levará a cabo a vingança contra Belial e os seus;
  • Todos os deuses virão em apoio a Melquisedeque;
  • Melquisedeque é identificado com o Anjo Miguel, o qual seria sua imagem celestial ou exaltação, enquanto na Terra é o Condutor do Povo Eleito, ou seja, deus do Mundo, Rei, Sacerdote e Messias.

NOTAS

[1] Do hebr. Melekh (“Rei”) Tzedeq (“Justo”).

[2] Numa interpretação alternativa, teríamos, em hebraico, Malkh’i (“Meu Rei”) Tzedeq (“[é] Justo”). O adágio maçônico citado como “Deus e o meu Direito” é, em latim, Deus meumque Jus. Sobre esse adágio, leia mais em < http://www.masonic.com.br/brasao/escoces.htm >. Acesso em 3 de junho de 2015.

[3] Cf. Ev. sec. Lucam (Evangelho segundo Lucas) 2, 14 in Vulgata: “Gloria in altissimis Deo, et super terram pax in hominibus bonæ voluntatis“. Ref.: Bíblia Sacra Vulgata, ed. revisada. Roma: SBB, 1994.

[4] Gênesis 15,2.

[5] VALDÉS, A. A.  Que sabemos sobre a Bíblia?, vol. II, 5ª ed. São Paulo: Santuário, 2002, 112 pp.

[6] De ambos, Elias e Enoque, profetas, é dito que foram transladados ao Céu ou algum outro lugar desconhecido e são dados como desaparecidos. Elias, que é o mesmo com o qual fora confundido João Batista e Jesus e que “havia de voltar”, foi levado ao Céu por uma carruagem de fogo, acreditando alguns em abdução do mesmo por OVNIs (II Reis, cap. 2). Enoque é o mesmo o qual é mencionado no apócrifo Livro de Enoque, levado ao Céu por Deus (Gênesis 5,24). Nada se fala acerca da morte de ambos, o que abre espaço para especulações acerca de seu de seus destinos após suas carreiras terrestres e que os mesmos, talvez, ainda vivam.

[7] FINSLAB. Priest Righteous. Revista Educativa: Teses, Documentos, Publicações. Entrada (online), 2014Disponível em < http://goo.gl/pGsDU2 >. Acesso em 3 de junho de 2015.

[8] Esse fato é de suma importância, pois evidencia que o deus adotado pelos hebreus já recebia culto na Palestina (Canaã) como El Elyion (“Deus Altíssimo”), muito antes da suposta chegada dos mesmos, sendo esse culto a base da fé judaica posterior, em quase nada original.

Lit.: “Seu fundador [o da cidade de Jerusalém] foi um príncipe dos cananeus, cognominado o Justo, pela sua piedade. Por primeiro, consagrou a cidade a Deus, construindo-lhe um Templo e mudou-lhe o nome de Solima [Salém] para o de Jerusalém.” Ref.: JOSEFO, F. A História dos Hebreus, XX, 47. Arquivo (online, PDF). Disponível em < http://goo.gl/yBpLR2 >. Acesso em 4 de junho de 2015.

[9] OLYAN, S. M. Asherah and the cult of Yahweh in Israel. Scholar Press, 1988, 100 pp.

[10] FINKELSTEIN, I.; SILBERMAN, N. A. The Bible Unearthed: Archaelogy’s new vision of Ancient Israel and the origin of its Sacred Texts. Nova Iork: The Free Press, 2001, 375 pp.

[11] Chakravartin é “um nome de origem sânscrita, referente a um Rei Universal ideal, que rege o mundo inteiro, de forma ética e benevolente. Essa palavra é composta de dois termos sânscritos: chakra (‘roda’) e vartin (‘aquele que gira’). Assim, temos o Chakravartin como ‘aquele que gira a roda’, ou seja, domina e sustenta a ‘Roda do Mundo e do Destino’. Em textos hindus, é o monarca todo-poderoso cuja ‘carruagem avança livremente’, a qual nada pode se opor”. Trad. do editor. Ref.: Encyclopedia of Religion: Chakravartin. Gale Group, 2006.

[12] Vide: GUÉNON, R. O Rei do Mundo, caps. I-IV. Lisboa: Edições 70, 1958.

[13] Ibid.

[14] Templo de Narabanchi Kure, na cidade de Erdene Zuu, Mongólia. Mais informações em < https://youtu.be/K64DmiZvIH4 >. Acessado em 4 de junho de 2015.

[15] OSSENDOWSKY, F. Beasts, Men and Gods. 1st ed. Fairfield, IA: W.L. Literary Soc., 2004, p. 314.

[16] VALBORG, H. Symbols of the Eternal Doctrine: From Shamballa to Paradise. Washington, DC: Theosophy Trust, 2007.

[17] VON SASS, R. A verdade sobre os Incas. 8ª ed. revisada. São Paulo: Ordem do Graal na Terra, 1999, p. 261.

[18] Vide nota nº 13.

[19] Segundo a Mitologia grega, Deucalião era filho de Prometeu, um semideus que teria formado os seres humanos do barro e trazido ao mesmo a luz da Razão (ou o “fogo dos deuses”), sendo relacionado à Antiga Serpente e Lúcifer por alguns estudiosos. Lembremos que, equanto, no relato de Gênesis, Deus teria pessoalmente instruído a construção da Arca a Noé, fora Prometeu que instruiu Deucalião na mesma tarefa.

[20] Mateus 23,37 e Lucas 13,35.

[21] João 8,56-58.

[22] Para uma visualização do manuscrito 11Q13, acesse <  >.

[23] SUMMER, P. Melchizedek: Angel, Man or Messiah? Artigo (online). Hebrew Streams: “Messianic” Texts at Qumran. Disponível em < http://goo.gl/Uy5Pbc >. Acesso em 5 de junho de 2015.

[24] SUNYOL, M. Un mismo traje para Melquisedec y Jesus. Artigo (online). Publicado a 24 de maio de 2013. Disponível em < http://usuaris.tinet.cat/fqi_sp04/melquisedec_sp.htm >. Acesso em 5 de junho de 2015.

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2 comentários sobre “[ESPECIAL]: Melquisedeque, o Rei do Mundo

    • A fonte é minha própria reflexão sobre o simbolismo analógico de ambas as personagens. Se, por acaso, você tiver ressalvas, peço que as apresente para evrificarmos se há retificações a serem feitas.

      Saudações! 😀

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