Terá Jesus realmente morrido na Cruz?

Esta postagem não pretende negar definitivamente a crença da morte de Jesus na Cruz. Fato: Jesus pode mesmo ter morrido na Cruz. O que venho expor aqui são elementos que permitem supormos que ele pode não ter morrido, de verdade, na Cruz. E se Jesus não tivesse morrido e, portanto, ressuscitado “dos mortos”?

Para quem assistisse à cena horrenda do suplício de Cristo na Cruz (ou na estaca, se tiver sido esse o caso), a primeira coisa que poderia-se pensar é que ele morreu mesmo após a última expiração. Após tantas dores, flagelação, humilhação, hemorragias e traumas por todo o corpo, como pensar que ele sobreviveria? Mas, terá sido impossível que escapasse à crucificação? Bem, segundo o mesmo Flávio Josefo, tão citado por todos os católicos, teria havido alguns casos de sobreviventes da crucificação já há dois dias afixados à cruz!

Talvez, vendo que ele não descia da Cruz diante do deboche de seus inimigos do Templo, seus amigos e discípulos quisessem mesmo que Deus abreviasse aqueles momentos e que pudessem esquecer logo aquela tarde. Assim, todos os esqueceriam também, inclusive Caifás, sempre sedento por sangue (como todos os de sua maldita linhagem, os “assassinos de profetas”).

Porém, como bons questionadores, sempre devemos esgotar todas as hipóteses. Isso serviria à descrença, às dúvidas? Acaso, a busca pela confirmação (ou não) da Verdade deve ser prejudicada por meros sentimentos de apego à crença? A antiguidade de uma crença tida como verdadeira deveria isentá-la de reapresentar sua validade às diferentes gerações? Se o Evangelho é uma “novidade e motivo de escândalo” para os crentes, por que deixaria de sê-lo para os “apóstatas”?

***

Depois de ser flagelado violentamente e entregue por Pôncio Pilatos ao suplício pelas mãos dos embrutecidos legionários, Jesus é pregado à Cruz e a ela encosta seu dorso lanhado pelo gato-de-nove-caldas. Daí em diante, passa algumas horas castigado por dores lancinantes nos ossos do punho e dos calcanhares perfurados por cravos espessos. Sangra e desidrata. Sob o sol forte e clima seco do fim do inverno na Palestina, fica febril e tem dificuldade de tossir, pois cada espasmo significa uma explosão de dor nos pés e mãos. Diga-se que, não seria surpresa que Jesus, a exemplo de outros condenados ao “madeiro” (em grego, stauros), tivesse sofrido de perda fecal e urinária, tamanha a tensão constante dos músculos corporais, principalmente os do abdômen, além da desidratação, como foi falado acima.,

Jesus começa a alternar momentos de delírio, espasmos e sonolência. Contorce-se, tentando achar uma base para que seu corpo permita-lhe respirar, a cada vez com menos chances de sucesso. Não consegue responder aos seus detratores, ou não consegue raciocinar para tal? Talvez por ambos os motivos, acrescentando-se a confusão mental da prolongada exposição à dor. Sim, a dor pode causar ausência mental por mecanismos de proteção que o cérebro aplica-nos para poupar o hardcore do Ego e da Memória. Sim, a dor também pode nos enlouquecer. A dor é o sintoma sensível do trauma.

Imediatamente antes de Jesus “apagar” (ou seja, “morrer”), houve quem desse algo de beber a Jesus. Segundo Mateus (XXVII, 48) e Marcos (XV, 36), vinagre em uma esponja , na ponta de uma vara ou cana. Enquanto em Mateus e Marcos, diz-se que os que lhe deram de beber eram zombadores que queriam ver se “Elias iria tirá-lo da Cruz”, João (XIX, 28-30) diz que primeiro Jesus reclamou de sede, vindo alguém (não se sabe quem ou o que fazia ali) para lhe servir “hissopo com vinagre”. Bem, o vinagre poderia ser vinho azedo, que normalmente desperta pessoas do desmaio (normal, se quisermos que um condenado sofra acordado). No entanto, Jesus desmaia (ou morre) em seguida, podendo ter servido como um narcótico. Sim, ao invés de vinagre, poderiam ter dado uma droga indutora de estado letárgico, semelhante à morte clínica. Sabemos que isso é plenamente possível, mesmo na Antiguidade, quando havia uma droga, chamada banj, algo parecido ao haxixe e comum em todo o mundo antigo, que poderia ser fumado ou diluído em bebidas e que causava diminuição drástica dos sinais vitais. Obviamente, para uma estratégia como essa, precisaria-se de “supervisão”.

Por essas e outras coisas que, mesmo que Jesus não tivesse morrido, ninguém poderia acusar, a princípio, os autores desses Evangelhos de praticar fraude, pois era crível que Jesus estivesse mesmo, por todos os sinais, clinicamente morto. Jesus, então, dá um brado (um grito) e deixar cair de lado seu rosto, entrega-se.

Se lhe tivessem quebrado as pernas, certamente poderíamos dizer com absoluta certeza que Jesus teria morrido, devido à parada circulatória que se seguiria nos membros inferiores e, principalmente, pela impossibilidade de o corpo se sustentar, causando a compressão do tórax e a morte por asfixia. Um soldado vem e e insere uma lança no flanco direito de Jesus, de baixo pra cima e da direita para a esquerda, no sentido diagonal.De tal ferimento, saem sangue e água. Provavelmente, a água que sai provém da pleura, acumulada em torno dos pulmões devido à insuficiência cardio-respiratória e à escassez de sangue (tendo em vista as horas de intensa perda de fluídos). O sangue não se sabe se jorra ou se sai já em processo de espessamento e coagulação post mortem. Se jorrou, há uma chance de que Jesus ainda não estivesse morto, apesar de saber que, mesmo alguns minutos após a morte, encontra-se sangue líquido em algumas partes do corpo do falecido.

Vendo isto, notamos uma atitude muito suspeita de José de Arimateia, o membro do Sinédrio que era discípulo (porém, discreto) de Jesus. Ele, sem pestanejar solicita uma ordem especial de Pilatos, consegue-a, vem e retira o corpo de Jesus do “madeiro”. Leva-o apressadamente para um túmulo em uma gruta funerária privativa de sua família, ainda não utilizada. José era rico, muito rico. Provavelmente, um rico comerciante, já que no ano 37 é mencionado como chegando à Inglaterra (onde deveria ter negócios) para pregar a mensagem de Jesus aos bretões e ali fundar o primeiro templo cristão fora da Palestina, acima do solo.

Leiamos o que nos conta João (XIX, 38-42):

Depois disto, José de Arimateia (o que era discípulo de Jesus, mas oculto, por medo dos judeus) rogou a Pilatos que lhe permitisse tirar o corpo de Jesus. E Pilatos lho permitiu. Então foi e tirou o corpo de Jesus.
E foi também Nicodemos (aquele que anteriormente se dirigira de noite a Jesus), levando quase cem arráteis de um composto de mirra e aloés.
Tomaram, pois, o corpo de Jesus e o envolveram em lençóis com as especiarias, como os judeus costumam fazer, na preparação para o sepulcro.
E havia um horto naquele lugar onde fora crucificado, e no horto um sepulcro novo, em que ainda ninguém havia sido posto.
Ali, pois (por causa da preparação dos judeus, e por estar perto aquele sepulcro), puseram a Jesus.

Um detalhe que quase não chama a atenção: Nicodemos (XIX, 39) leva “cem arráteis de um composto de mirra e aloés” para aplicar sobre o corpo de Jesus. O que pouca gente sabe é que, enquanto a mirra é odorífera e justificaria seu uso no ato de embalsamar um cadáver, a aloés (conhecida como aloe vera ou, entre nós, como babosa) não tem cheiro, produz uma resina viscosa (ou baba) que, desde a mais remota Antiguidade, é usada para cicatrizar e desinfectar ferimentos. Não, a aloés não era usada para embalsamar, mas para curar feridas e queimaduras.

Se Jesus estivesse mesmo morto, que serventia teria a aloés sobre seu corpo? Obviamente, nenhuma! Talvez, José de Arimateia e/ou Nicodemos tivessem informações privilegiadas ou pudessem identificar o que outros não saberiam, a saber, que Jesus “tinha morrido muito cedo”, e viram, aí, a chance de salvar Jesus. Talvez, sim, Jesus soubesse quando deveria “morrer”. Talvez, aquele vinagre estivesse “batizado” com algum narcótico que simulasse o estado de morte clínica.

Cerca de 36 horas depois, Jesus sai do sepulcro, talvez com a ajuda de “anjos”, talvez com a ajuda de suborno aos guardas. Aparece em Emaús, come, bebe, têm fome e sede. Bate um papo com um pessoal numa casa, e some. Depois, entra na casa onde os apóstolos estavam recolhidos e com medo, e mostra-lhe as feridas abertas. Ora, se fosse uma ressurreição, algo milagroso, seria de se esperar que as feridas estivessem já cicatrizadas.

No último versículo de seu relato (XXI,25), o autor do Evangelho de João ainda diz:

Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem. Amém.

Não se sabe se, quando João fala “ainda muitas outras coisas que Jesus fez”, se refere ao passado ou ao futuro, em relação àquela refeição com os discípulos que Jesus tivera, narrada no capítulo XXI. Quantas coisas ainda Jesus teria feito? Quanto à Ascensão, como relatada nos outros Evangelhos, a deixarei para outra postagem.

De resto, realmente, quem visse Jesus de pé depois de vê-lo “morrer” (para todos os efeitos), julgaria que ele ressuscitou. Ainda hoje, se assim testemunhássemos, a primeira coisa que pensaríamos seria isso: que o sujeito ressuscitou! Ou não…

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6 comentários sobre “Terá Jesus realmente morrido na Cruz?

    • Sandro, já pensei nisso. Mas, como livre pensador que hoje sou, realmente, com tantas referências dissonantes e, até mesmo, contraditórias sobre ele, fica difícil refutar a existência histórica dele.

      O que posso conjecturar é que mitificaram o ser histórico, real. E se aproveitaram da imagem dele para reforçar a sobrevivência do paganismo de braços dados com um monoteísmo macaqueado de matiz judaica.

      Um abraço e obrigado pela leitura!

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  1. Estudiosos dos textos de Flávio Josefo, um dos 40 historiados contemporaneos do” afamado” Jesus, e o mais famoso deles, concordam que tem tudo para ser um enxerto da igreja, o pequeno paragrafo que cita o dito cujo, no grosso livro (1500 páginas) – A história dos Judeus.
    Estranho, no mínimo, uma persona tão famosa não deixar rastros materias pertinentes, nem um que seja, e sua extraordinária história constar apenas em um livro religioso construido dezenas de anos após sua aventura na terra!!!
    Alfredo Bernacchi, um ateu brasileiro, estudou e escreveu vários livros levantando essa questão,
    recomendo uma pesquisa. Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    • Sandro, Flávio Josefo não é nada perto do que os judeus, a raça que mais odeia a figura do Nazareno, falou a respeito dele no Talmud. E, sabemos, o Talmud, se é mais delirante que alguns livros sagrados, é ao mesmo tempo bastante referenciado historicamente. Procure e acharás! kkkk

      Um abraço!

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