Jesus e a seita dos Nazarenos

Bem, ao nos darmos conta de que não se tem qualquer notícia da existência de uma cidade chamada Nazaré, ao menos, até o fim do séc. I, só temos uma forma de explicarmos por qual motivo Jesus era chamado de Nazareno (diga-se, como consta na placa da Cruz): Jesus era chamado Nazareno porque fazia parte ou era considerado adepto da seita dos Nazarenos [1], provavelmente a mesma à qual João Batista também pertencia.

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Quem eram os Nazarenos?

Nazarenos formavam um seita gnóstica que misturava doutrinas egípcias, platônicas e misticismo judaico. Também chamados de “nazireus”, suas características nos dão pistas de que Jesus, provavelmente, fora um deles. Cabelos e barbas compridos, vivência comunitária, divisão de bens e alimentos em comum, supostos conhecimentos secretos de cura e exorcismo ritual, celibato votivo, repúdio ao sacrifício de animais [2], rituais de banhos por imersão, etc.

O maior testemunho de que os nazarenos eram gnósticos obtemos através dos seus alegados seguidores, ainda existentes, os mandeus. Eles são reconhecidos por historiadores e autoridades eclesiásticas orientais como legítimos herdeiros da tradição nazarena de João, o Batista, justamente aquele do qual é dito ter sido primo de Jesus e de o ter batizado (ou iniciado).

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Os Mandeus, herdeiros espirituais de João, o Batista

O mandeísmo [3], atualmente, é considerada a tradição gnóstica mais antiga do mundo e é tida como em perigo de extinção, tendo em vista a perseguição que seus adeptos sofrem na região central e sul do Iraque, bem como na Síria, da parte dos terroristas muçulmanos do ISIS e outros grupos ligados à Al-Qaeda. No Irã, no entanto, vivem em relativa paz. Há pequenos núcleos mandeístas em outros países do Ocidente. Somam hoje, segundo o site oficial da seita, cerca de 30 mil adeptos [4].

Curiosa é a extrema animosidade que os mandeus nutrem pela memória de Jesus, a quem acusam de ter usurpado os segredos mágicos e de cura de seu mestre, João, o Batista, tendo, logo após, passado por cima de sua autoridade e aliciado seus seguidores. De fato, algumas passagens dos Evangelhos católicos dão conta da rivalidade entre os seguidores de João — a quem os mandeus chamam de Yahya — e os discípulos de Jesus.

Quando lemos que nazarenos de João questionam o fato de Jesus e seus discípulos comerem e beberem, prodigamente, entre “pecadores e publicanos” e não jejuarem, podemos perceber que há uma relação estreita prévia entre Jesus e os seguidores de João e uma cobrança por comportamentos esperados daquele [5]. Assim, parece haver, ainda hoje e nutrido durante esses últimos dois mil anos, um profundo ressentimento dos mandeus por Jesus sob a acusação de malversação, por este, dos conhecimentos de João para aliciamento de adeptos e a formação de uma nova seita pseudo-nazarena.

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Ecos Nazarenos na doutrina de Jesus

Tanto os essênios como os nazarenos influenciaram a formação das primeiras comunidades ditas cristãs. Enquanto o cosmopolita Paulo de Tarso investia sua pregação na Ásia Menor e na Europa, os cristãos de matiz nazarena se fixaram em monastérios como o do Monte Carmelo, onde veneravam a memória do profeta Elias (que teria sido, também ele, nazareno), e entre os coptas do Egito, destacadamente o Monastério de São Pacômio (ao sul do Egito) e o do Monte Sinai. Daí é que podemos começar a entender a diferença abissal entre as práticas devocionais dos monges do deserto e as dos neófitos europeus.

Teria sido a seita nazarena o verdadeiro berço da doutrina de Jesus? Não seria por isso que, após a decapitação de João, teriam atribuído a Jesus a profecia da “volta” de Elias, tão venerado entre os nazarenos? Lembremos que o monastério nazareno no Monte Carmelo ficava há algumas horas de distância em montaria da Galileia, onde Jesus passou a maior parte de sua vida.

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NOTAS

[1] Artigo sobre os Nazarenos (seita, em inglês):  http://en.wikipedia.org/wiki/Nazarene_%28sect%29.

[2] Os Nazarenos eram vegetarianos e, no máximo, comiam peixes algumas vezes por ano.

[3] Artigo sobre o Mandeísmo (em inglês, completo): http://en.wikipedia.org/wiki/Mandaeism. // Artigo sobre Mandeísmo (em português): http://pt.wikipedia.org/wiki/Mandeísmo. // Site oficial da União das Associações Mandaicas (em inglês): http://www.mandaeanunion.org/.

[4] PEREIRA, Rosalie H. de S. A Questão da origem dos Mandeus, os últimos Gnósticosin REVER, Revista de Estudos da Religião (artigo, online, PDF), ed. junho de 2009, pp. 92-109. Disponível em < http://www.pucsp.br/rever/rv2_2009/i_pereira.pdf >. Acesso em 7 de abril de 2015.

[5] Cf. Mt 9,14; Mc 2,18; Lc 5,33.

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